quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Primitivo







Fico perdida nessas lembranças de pele
E enlaçada nesse enigmático sorriso.
Puxo um último fôlego preso à garganta,
Doce sinfonia ao alcançar o paraíso.

Desfaleço ao poucos nesse eterno delírio,
A volúpia desmanchando esses corpos unidos.
Gritos! O suor frio rastejando por cada poro sensível
E misturando-se aos outros fluídos.

Sinto o calor! Sinto as unhas rasgando
A carne quente, saborosa e crua.
Esqueço-me um pouco nessas respirações angustiantes
E na jura silenciosa dessa carícia nua.

Dentes e línguas nessa dança sincronizada
Da canção de gemidos e suspiros desenfreados.
O sangue corre antes que o coração sinta
O desespero desses batimentos descompassados.

Os soluços tão altos, a fantasia tão perto,
Fortemente, emaranhados nesse choro engolido.
As mãos sedentas, imunes à razão tentadora,
Esmagando sem dó esse corpo exaurido.

Risos e lágrimas nesse ritual divino
De força e fraqueza, sem vítima e sem algoz.
O desejo explode, as bocas imploram
Com beijos e sopros e sem nenhuma voz.

Esse ato insensato, primitivo e bem vindo,
Unindo esses corpos sem correntes e laços,
Que acorda os extintos tão bem escondidos
E acalma a ânsia num singelo abraço.

An. P. Maciel

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