sábado, 28 de setembro de 2013

Adaga



Finalmente a adaga selou meu destino.
Destino de dor e agonia.
Enquanto a ferida estiver aberta
e o temporal de sangue continuar escorrendo,
terei a certeza de que... continuo viva,
mesmo que minha respiração esteja quase chegando ao fim.

Fico perdida em minhas lembranças.
Em um segundo, lamento minha vida inteira.
Em um simples segundo, me arrependo
de todas as coisas asquerosas e grotescas
que pratiquei durante toda a minha existência.

...

Só agora, com essa adaga cravada em meu peito,
pude perceber todo o mal que causei a mim mesma.
Eu esquartejei a minh'alma em milhares de pedacinhos,
subornei a minha mente com pensamentos imundos,
mutilei o meu corpo e agora as feridas reabriram-se
fazendo minha carne arder ainda mais.

...

Fecho os meus olhos e vejo o que estar além desse mundo.
Sinto presenças sombrias envolvendo o meu corpo.
Uma brisa gelada me toma por inteira,
Abro os olhos e me vejo coberta por flores.
Não consigo entender nada...
Não consigo me mover.

Finalmente eles conseguiram...
Conseguiram fechar meus olhos,
conseguiram calar minha boca...
Conseguiram me jogar num calabouço sem saída,
em uma prisão perpetua,
eternamente condenada
sem advogado, sem palavra e sem alma.

O anjo da morte me rodeia.
Anjo lindo, mas sem vitalidade.
Em seu olhar vejo a agonia de todas as almas capturadas.
O pavor me consome tento fugir, mas não consigo.
Ele se aproxima e me tira desse cemitério.

...

Agora estou numa dimensão dividida entre trevas e luz.
Nas trevas não consigo ver nada,
é escuro demais.
Na luz também não consigo ver nada,
a luz é forte e faz os meus olhos arderem.

Não consigo decidir para qual lugar devo ir,
não consigo me mover.
Gostaria de ter uma nova chance
e voltar para o lugar de partida.

E mesmo que a adaga
não esteja mais cravada em meu peito,
a ferida vai continuar sempre aqui,
cicatrizada por fora e sangrando por dentro.

An. P. Maciel


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