Em um jardim soturno
Com flores mórbidas e alguns
túmulos,
Vagava, Eu, sem desatino,
Quando ouvi ao pé d’ouvido
Uma voz a sussurra:
- Sentes a inveja humana
Possuir teu frágil espírito?
Surpresa, eu respondi: “Não sinto.”
- Sentes a fome abrasadora
Devorar teu estômago faminto?
Desesperada, sussurrei: “Não sinto.”
- Sentes a ferida aberta
Devorar teu coração partido?
Com o olhar perdido, respondi: “Não sinto.”
- Sentes o olhar instigador
Desvendando o teu passado dolorido?
Aos prantos, respondi: “Não sinto.”
- Sentes as pedras pontudas
Perfurar teus pés feridos?
Torpente, disse apenas: “Não sinto.”
- Sentes o rancor se alastrando
Pelo teu interior distinto?
Injuriada, blasfemei: “Não sinto.”
- Sentes o fogo inflamar
O teu desejo incontido?
Impaciente, eu gritei: “NÃO SINTO.”
- Sentes o frio tenebroso
Corroer teu corpo já extinto?
Chorando, solucei: “Não sinto.”
- Sentes a vida esvaindo
Pelo teus dedos enfraquecidos?
Desfalecida, eu suspirei: “Não sinto.”
- Sentes um pavor descomunal
Da minha voz ao seu ouvido?
Irônica, cantarolei: “Não sinto.”
-Sentes a mágoa inflamar a ferida
De teu coração apodrecido?
Inconsciente, lamuriei: “Não sinto.”
An. P. Maciel

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