Numa rua deserta,
em altas horas da noite,
numa crise de loucura,
caminhava sozinha
por entre aquelas construções
dantescas,
quando avistei uma criatura
horrenda e grotesca
Faminta por um pedaço de
carne.
Não era um ser de outro
mundo
ou um animal desconhecido.
Não era fera; Nem mito
Era um homem com olhar
aflito,
Talvez perdido
Assim como eu na noite
perigosa.
Era maltrapilho, mas não
pedia esmolas.
Sussurrava palavras ao vento
como num rito de magia.
Parecia uma linguagem esquecida no tempo
cuja a pronúncia eu não
conhecia,
ou não lembrava, tudo ali
era confuso,
surreal e insano
pois eu estava diante de um
farrapo humano
Podre como um cadáver
ambulante.
Ele não falava,
cuspia palavras e palavras
infectas iguais as larvas.
A saliva que nem chuva ácida
caindo em minha face pálida.
Aquele homem urrava como um
animal louco
Com um sorriso entalhado no
rosto.
A rua era tão deserta,
os becos eram escuros.
Tudo desconhecido
e eu me perdi de tudo.
Exceto, aquele homem que me encontrara
e me fitava
Com aqueles olhos negros
sem alma.
Senti um suave vento da
espinha,
que corta mais que alivia.
Eu sabia, eu sabia...
Aquela rua era deserta,
tantas casas, mas nenhuma
alma vivente.
Nenhum latido ou miado,
parecendo prevê o mal
residente
que agonizava pelos becos
sombrios
num silêncio gritante e
perturbador.
E o único som que conseguia
ouvir
era o estômago vazio
daquele homem misterioso e
assustador
Que orquestrava uma sinfonia
macabra.
Foi aí que eu vi suas garras
afiadas.
Foi aí que senti minha pele
se cortando.
Meus músculos tensos,
minhas pernas sem movimento,
minha respiração falha
senti naquele momento.
E o que poderia fazer?
Como poderia escapar?
A fera veio até a mim,
lembro de sentir
aquele hálito podre ao pé
d’ouvido.
Enquanto a língua,
terrivelmente grotesca,
bailava por aquele ponto
sensível,
ele murmurava alegremente:
“A carne humana tem gosto de
carne suína
e me pergunto: por que os
porcos
Não estão no topo da cadeia alimentar?”
Olhei pra ele com o olhar de
repúdio,
e ele sorriu com o insulto
e continuou a sussurrar:
“Sim eu sou um porco
E vou te devorar.”
Com um último sopro de
esperança,
meus pés ganharam vida
e corri como numa maratona,
Ansiosa pelo primeiro lugar.
Sim, eu escapei do mal
improvável
e do monstro faminto.
E antes que tudo volte à lembrança,
nunca mais comi carne,
mas confesso e não minto:
Eu ainda sinto falta do
gosto.
An. P. Maciel

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