sexta-feira, 28 de março de 2014

Carne é Carne




Numa rua deserta,
em altas horas da noite,
numa crise de loucura,
caminhava sozinha
por entre aquelas construções dantescas,
quando avistei uma criatura
horrenda e grotesca
Faminta por um pedaço de carne.

Não era um ser de outro mundo
ou um animal desconhecido.
Não era fera; Nem mito
Era um homem com olhar aflito,
Talvez perdido
Assim como eu na noite perigosa.

Era maltrapilho, mas não pedia esmolas.
Sussurrava palavras ao vento
como num rito de magia.
 Parecia uma linguagem esquecida no tempo
cuja a pronúncia eu não conhecia,
ou não lembrava, tudo ali era confuso,
surreal e insano
pois eu estava diante de um farrapo humano
Podre como um cadáver ambulante.

Ele não falava,
cuspia palavras e palavras
infectas iguais as larvas.
A saliva que nem chuva ácida
caindo em minha face pálida.
Aquele homem urrava como um animal louco
Com um sorriso entalhado no rosto.

A rua era tão deserta,
os becos eram escuros.
Tudo desconhecido
e eu me perdi de tudo.
Exceto, aquele homem que me encontrara
e me fitava
Com aqueles olhos negros
sem alma.

Senti um suave vento da espinha,
que corta mais que alivia.
Eu sabia, eu sabia...

Aquela rua era deserta,
tantas casas, mas nenhuma alma vivente.
Nenhum latido ou miado,
parecendo prevê o mal residente
que agonizava pelos becos sombrios
num silêncio gritante e perturbador.
E o único som que conseguia ouvir
era o estômago vazio
daquele homem misterioso e assustador
Que orquestrava uma sinfonia macabra.

Foi aí que eu vi suas garras afiadas.
Foi aí que senti minha pele se cortando.
Meus músculos tensos,
minhas pernas sem movimento,
minha respiração falha
senti naquele momento.
E o que poderia fazer?
Como poderia escapar?

A fera veio até a mim,
lembro de sentir
aquele hálito podre ao pé d’ouvido.
Enquanto a língua, terrivelmente grotesca,
bailava por aquele ponto sensível,
ele murmurava alegremente:
“A carne humana tem gosto de carne suína
e me pergunto: por que os porcos
Não estão no topo da cadeia alimentar?”

Olhei pra ele com o olhar de repúdio,
e ele sorriu com o insulto
e continuou a sussurrar:
 “Sim eu sou um porco
E vou te devorar.”

Com um último sopro de esperança,
meus pés ganharam vida
e corri como numa maratona,
Ansiosa pelo primeiro lugar.

Sim, eu escapei do mal improvável
e do monstro faminto.
E antes que tudo volte à lembrança,
nunca mais comi carne,
mas confesso e não minto:
Eu ainda sinto falta do gosto.


An. P. Maciel

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