Não lembro nada além disso.
O que ficou para trás,
simplesmente, deixou de existir.
O rosto irreconhecível.
Uma única noite, é tudo que
recordo.
A noite, em vida que povoa
meus pensamentos
Sempre que fecho os olhos,
Era sombria e fazia muito frio.
Era a noite do meu último
suspiro
Caminhava, entre aquelas
paisagens toscas
E construções deterioradas,
Buscando algum lugar,
Alguém...
Mas não havia nenhuma
criatura viva
Naquela rua decadente.
Era tudo calmo e silencioso...
Até ouvir alguns sussurros.
Os segundos passavam
depressa
Num tic-tac descompassado
Junto ao meu coração angustiado.
O ar começou a pesar
E minha respiração a ficar
mais fraca.
O frio aumentava
E a lua esvaia aos
pouquinhos,
Deixando a noite ainda mais
escura e misteriosa.
Uma névoa aproximou-se de
mim,
E não consegui ver mais
nada;
Nem sentir.
Os sussurros cessaram.
Desespero era única coisa
que me mantinha ali.
Tentava sair daquela névoa,
Mas ela não tinha fim...
Eu não saia do lugar.
E num instante de delírio,
Senti o hálito estranho –
Uma presença maligna perto de
mim –
Congelei. E ele surgiu à
minha frente
Fazendo a névoa passar.
Foi assim que o vi
nitidamente.
E como era rara a beleza
daquela criatura
Que meu coração doía a cada palpitação desenfreada
A ponto de querer sair do meu
peito...
Minhas mãos tornavam-se mais frias.
Não resiste e nos beijamos.
Somente nojo guardei daquele
beijo
E um gosto azedo na boca.
Tentei fugir,
Mas meu corpo já não
respondia.
Eu estava inerte como uma
estátua de gelo.
A sensação era monstruosa...
Sim, eu estava morta!
Fui ao inferno e, em poucos
segundos,
Estava de volta.
Tudo estava diferente,
O meu corpo, completamente,
frio;
Meu hálito se desfazia em
pequenas partículas de gelo no ar;
Minhas mãos, morbidamente,
brancas;
E os meus olhos,
Como glóbulos oculares de um
microscópio,
Estavam atentos a tudo.
Desse momento até o presente,
O passado ficou esquecido.
O órgão vital, que me
tornava humana,
Agora é somente um pedaço de
carne apodrecida
Entupida de sangue
coagulado.
Qualquer vestígio de amor ou
piedade,
Não fazem mais parte da
minha racionalidade,
Pois tudo que sinto e domina
os meus atos
São essa raiva visceral
E essa fome incessante por
sangue humano.
An. P. Maciel

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