segunda-feira, 14 de abril de 2014

O Último Suspiro




Não lembro nada além disso.
O que ficou para trás, simplesmente, deixou de existir.
O rosto irreconhecível.

Uma única noite, é tudo que recordo.
A noite, em vida que povoa meus pensamentos
Sempre que fecho os olhos,
Era sombria e fazia muito frio.
Era a noite do meu último suspiro

Caminhava, entre aquelas paisagens toscas
E construções deterioradas,
Buscando algum lugar,
Alguém...
Mas não havia nenhuma criatura viva
Naquela rua decadente.
Era tudo calmo e silencioso...
Até ouvir alguns sussurros.

Os segundos passavam depressa
Num tic-tac descompassado
Junto ao meu coração angustiado.
O ar começou a pesar
E minha respiração a ficar mais fraca.

O frio aumentava
E a lua esvaia aos pouquinhos,
Deixando a noite ainda mais escura e misteriosa.

Uma névoa aproximou-se de mim,
E não consegui ver mais nada;
Nem sentir.
Os sussurros cessaram.
Desespero era única coisa que me mantinha ali.
Tentava sair daquela névoa,
Mas ela não tinha fim...
Eu não saia do lugar.

E num instante de delírio,
Senti o hálito estranho –
Uma presença maligna perto de mim –
Congelei. E ele surgiu à minha frente
Fazendo a névoa passar.

Foi assim que o vi nitidamente.
E como era rara a beleza daquela criatura
Que meu coração doía a cada palpitação desenfreada 
A ponto de querer sair do meu peito...
 Minhas mãos tornavam-se mais frias.
Não resiste e nos beijamos.

Somente nojo guardei daquele beijo
E um gosto azedo na boca.
Tentei fugir,
Mas meu corpo já não respondia.
Eu estava inerte como uma estátua de gelo.
A sensação era monstruosa...
Sim, eu estava morta!

Fui ao inferno e, em poucos segundos,
Estava de volta.
Tudo estava diferente,
O meu corpo, completamente, frio;
Meu hálito se desfazia em pequenas partículas de gelo no ar;
Minhas mãos, morbidamente, brancas;
E os meus olhos,
Como glóbulos oculares de um microscópio,
Estavam atentos a tudo.

Desse momento até o presente,
O passado ficou esquecido.
O órgão vital, que me tornava humana,
Agora é somente um pedaço de carne apodrecida
Entupida de sangue coagulado.
Qualquer vestígio de amor ou piedade,
Não fazem mais parte da minha racionalidade,
Pois tudo que sinto e domina os meus atos
São essa raiva visceral
E essa fome incessante por sangue humano.

An. P. Maciel


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