Escorada à janela
Da torre mais sombria,
Descansava a jovem
De tranças douradas,
Íris amendoadas
E a pele fria.
Seu olhar tão vazio
Esvaído em tristeza,
Mas, ainda assim, era
brando.
Sua face bem delineada,
Parecia uma boneca de tão
delicada
E de tão rara beleza.
E pálida ela era
Como um sol de outono,
Que brilha fraco,
Quase sem vida
Pela primavera esquecida,
Que o deixara em abandono.
Seu vestido branco de seda,
Tão puro como as nuvens no
céu,
Parecia pele sobre a pele
branca
Daquela criança despudorada,
Que usava as vestes
rasgadas
Coberta por um pequeno véu.
E um vendaval sucumbiu
Desfazendo as tranças
douradas
Da pobre dama adormecida
Que ressonava
tranquilamente,
Não sentira o maldito
incidente
Entrar pela janela
escancarada.
Ali ficara caída,
Debruçada sobre a janela,
E as flores ao pé da torre
morreram,
Como se tudo ali fosse
assombrado,
Devorando tudo p’ra aqueles
lados,
Até mesmo a bela donzela.
Matou tudo, morreu tudo.
A beleza imaculada
Atraiu o ser desprezível,
Que tirara sua inocência,
Com nenhum pingo de
clemência,
A abandonando morta à janela escorada.
A abandonando morta à janela escorada.
Descansa no alto à torre
escura,
Tão alta que toca os céus
Aquela princesa que
padecera
Com a mortalha branca
rasgada,
Mas ainda com a beleza
imaculada,
Como se fosse um anjo de
Deus.
An. P. Maciel
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