3:45 de uma madrugada torrencial de inverno.
Lá fora a chuva desagua sem
dó,
chicoteando os frágeis
telhados,
parecendo pedras pontudas
prontas para rompê-los.
Aqui, nesse pobre recinto,
tento de alguma forma
aplacar minha tristeza.
A insônia não me dá trégua.
O lítio já não é tão
necessário.
Nesses últimos dias negros,
os delírios tornaram-se
constantes.
Meus olhos pesam, mas nunca
fecham
e eu sonho acordada.
O vento que chega, parece
seco
misturado às gotas úmidas
da chuva,
seu calor envolve meu corpo
como um sopro de uma boca
saudosa.
O suor desliza pela minha
pele quente.
O frio que sinto não vem do
tempo,
meu corpo é aquecido pela
febre
enquanto meu coração parece
gelar em meu peito.
Olho em volta: “Fracasso,”
é o que as quatro paredes
ecoam.
Nesse pobre quarto de
paredes rachadas e morfadas,
apenas uma cama de solteiro
e uma cômoda toda estiorada.
Perto à janela os meus bens
mais preciosos:
Uma velha escrivaninha de
cor âmbar
e uma cadeira de madeira
envernizada
tão velha e cheia de cupins.
Sento ante a escrivaninha,
procuro o velho caderno de
rascunhos,
já faz um tempo que não
escrevo.
Releio algumas páginas, só
pra não me esquecer.
Minha inspiração é nula
(Graças ao maldito vinho
vagabundo.),
mas ainda tento, mesmo em
vão,
aplacar minha dor na
poesia.
Horas a fio e nada,
nenhuma gotinha sequer de
palavras legíveis.
Tudo, assim como o caderno,
virara um imenso borrão,
incompreensível até para os
mais astutos.
Desperdício de tempo e o
sono nunca chega.
A chuva não cessa,
as lágrimas me cegam
e os sedativos não
adormecem minhas dores.
An. P. Maciel

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