terça-feira, 8 de abril de 2014

Insônia




3:45  de uma madrugada torrencial de inverno.
Lá fora a chuva desagua sem dó,
chicoteando os frágeis telhados,
parecendo pedras pontudas prontas  para rompê-los.

Aqui, nesse pobre recinto,
tento de alguma forma aplacar minha tristeza.
A insônia não me dá trégua.
O lítio já não é tão necessário.

Nesses últimos dias negros,
os delírios tornaram-se constantes.
Meus olhos pesam, mas nunca fecham
e eu sonho acordada.

O vento que chega, parece seco
misturado às gotas úmidas da chuva,
seu calor envolve meu corpo
como um sopro de uma boca saudosa.

O suor desliza pela minha pele quente.
O frio que sinto não vem do tempo,
meu corpo é aquecido pela febre
enquanto meu coração parece gelar em meu peito.

Olho em volta: “Fracasso,”
é o que as quatro paredes ecoam.
Nesse pobre quarto de paredes rachadas e morfadas,
apenas uma cama de solteiro e uma cômoda toda estiorada.

Perto à janela os meus bens mais preciosos:
Uma velha escrivaninha de cor âmbar
e uma cadeira de madeira envernizada
tão velha e cheia de cupins.

Sento ante a escrivaninha,
procuro o velho caderno de rascunhos,
já faz um tempo que não escrevo.
Releio algumas páginas, só pra não me esquecer.

Minha inspiração é nula
(Graças ao maldito vinho vagabundo.),
mas ainda tento, mesmo em vão,
aplacar minha dor na poesia.

Horas a fio e nada,
nenhuma gotinha sequer de palavras legíveis.
Tudo, assim como o caderno, virara um imenso borrão,
incompreensível até para os mais astutos.

Desperdício de tempo e o sono nunca chega.   
A chuva não cessa,
as lágrimas me cegam
e os sedativos não adormecem minhas dores.


An. P. Maciel

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