terça-feira, 27 de maio de 2014

Janelas




Sempre que olho além do vidro,
Das janelas embaçadas,
Vejo olhos castanhos a me fitar com ódio –
Ora são luminosos como dois cristais incandescentes,
Ora são frios sem qualquer brilho de vida –

E para qualquer lado,
Por onde quer que eu caminhe,
Respire ou sinta,
Há sempre passos a me seguir
Na estrada estreita e perigosa.

Onde corpos se aglomeram em pele e ossos.
Sussurros! Gemidos! Um suspiro ao longe...
Vermelho por todos os cantos
E recantos mais escondidos.
O cheiro forte,
Um afrodisíaco queimando as narinas.

O instinto assassino,
Pesadelo ou sina...
Esse quebra-cabeça de retalhos
E de peças vivas.
Uma canção enfraquecida;
Não lembrada;
Não ouvida

Em horas soltas que matam o tempo.
O parasita inda rasteja por dentro
De cada veia pútrida
Desse monstro em carne viva –
Dessa peça única que se resume a vida

Do outro lado das janelas embaçadas,
Ah, essas órbitas vazias
Banhadas em lágrimas!...
Meu algoz reside aqui dentro
Matando todo o espírito inocente.


An. P. Maciel

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