São bem poucos os tantos vícios que tenho,
e somente um me dilacera:
esse sentimento intoxicante,
devorando meu coração feito fera. -
Esse mesmo vício que mata a tantos outros
desde o início das Eras.
Somente o Amor, - esse sentimento repulsivo
de querer ser dono, sem ter em quem mandar.
Trazendo consigo todo e qualquer abandono
das noites insones; ao dormir; e ao acordar.
Esse sentimento obsessivo de querer mais que tudo. -
Essa sede impossível de matar.
E quando gelam os olhos,
que um dia já foram acesos em brasas,
o Desejo sai porta à fora,
como quem não necessita de casa.
O Amor voa mais alto,
mas a dor corta suas asas.
Feliz daquele que, na angústia, acende um cigarro,
e no álcool o sangue há de sorver.
- O vício entorpece a dor latente. -
Um viciado afirma sem dizer.
Mas quando o vício é Amar... -
Mais um que morre e ninguém vê!
Abstenho-me então desses beijos delirantes,
dessas nuvens e línguas à bailar
no céu da boca lasciva e infame,
cujo o vício é somente despedaçar,
como as ondas quebram os barcos
quando bailam sobre o mar.
An. P. Maciel

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