domingo, 5 de outubro de 2014

Canção de Alta Noite



Alta noite, lua quieta,
mares frios, praia rasa.

Anda, andar, que um poeta
não necessita de casa.

Acaba-se a última porta.
O resto é o chão do abandono.

Um poeta, na noite morta,
não necessita de sono.

Andar... Perder o seu passo
na noite, também perdida

Um poeta, à mercê do espaço,
nem necessita de vida.

Andar... - enquanto consente
Deus que seja a noite andada.

Porque o poeta, indiferente,
andar por andar - somente.
Não necessita de nada.

Cecília Meireles

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